[Arquivo] La vélo Duchene: As crónicas de André Carvalho

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duchene

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#1


O meu nome é André Carvalho e gosto de pedalar por estradas desertas e fascinantes...
Poderia começar assim uma breve e porventura pouco interessante biografia. Pouparei o trabalho de tão maçadora leitura resumindo, em apenas meia dúzia de parágrafos, o que me leva a abrir este tópico.

O ciclismo de estrada começa, para mim, em Dezembro de 2008, com as primeiras voltas em jeito de entrosamento com esta nova realidade. Depois de experimentar alguns dos circuitos tradicionais aqui pelos arredores do Porto, rapidamente percebi que havia um potencial bem maior para este novo paradigma de autonomia. Assim, comecei a aventurar-me em distâncias cada vez maiores e, sobretudo, em rotas cada vez mais alternativas. Primeiro procurando o que de diferente via fazer e depois pensando, ligando e descobrindo os meus próprios puzzles de estrada materializados em figuras e objectivos cada vez mais complexos.

Sou, por isso, um ávido devorador de mapas, conteúdos online e literatura etnográfica, onde tento encontrar novos e inusitados pretextos para criar rotas que me levem a conhecer lugares que povoam o meu imaginário, entregando-me depois à surpresa de ir descobrindo outros pequenos tesouros pelo caminho. O destino não é um fim em si, mas apenas um pretexto para encetar a viagem, essa sim a razão que me move.

Fascinam-me as estradas do interior, as estradas esquecidas e as estradas quase desactivadas. Procuro o desvio, o caminho mais longo e o mais sinuoso. Evito, sempre que possível, estradas principais ou de grande movimentação, bem como os principais centros urbanos. Procuro quase sempre o alto, porque de lá se alcança toda a grandeza desta terra que gosto de cruzar e é lá que o desafio maior se esconde.

Faço ponto de honra em nunca repetir rotas longas na íntegra, reservando raras excepções quando se trata de apresentar a um amigo de pedaladas um percurso que eventualmente já tenha cumprido, tentando, mesmo nesses casos, integrar novos troços que eu próprio ainda não conheça. Felizmente tenho conseguido a ginástica suficiente para manter este pressuposto, embora reconheça que, com o passar do tempo, se torne cada vez mais difícil gerir a rede de estradas ainda por explorar. No entanto prevalecerá a imaginação de tentar encontrar novas formas e novos sentidos de reconverter e (re)imaginar rotas em percursos já trilhados.

Por inúmeras razões, sou um aventureiro solitário. Gosto da solidão de pedalar horas a fio entregue aos meus devaneios, gosto da resistência mental que é necessário cultivar para superar obstáculo atrás de obstáculo em autonomia e gosto de gerir o meu tempo, o meu ritmo e toda a dinâmica de paragens. Gosto de fotografar e de pensar a fotografia e isso demora tempo, obriga a parar, observar, reflectir e por vezes... a não fotografar. E tudo isto se passa a uma cadência muito própria, pessoal e intransmissível.

Não enjeito naturalmente companhia, mas nem sempre há compatibilidade de andamentos ou filosofias que permitam partilhar a estrada em tão peculiares jornadas, embora nas raras ocasiões em que o tenho feito, com as devidas concessões, a experiência tem sido positiva.

Dito isto, não admira que dois anos depois do meu primeiro post no tópico dos Percursos no Porto, muita coisa tenha mudado. As quilometragens aumentaram e a área geográfica por onde pedalo expandiu-se consideravelmente, raramente se encaixando agora no Porto, cidade do meu coração.

Assim, surge a criação deste novo recanto, que servirá não só de repositório das crónicas dos passeios que vou fazendo, mas também como espaço de antevisão e discussão de novas opções de viagem e que espero partilhar com todos os que também se identifiquem com esta forma em particular de pedalar.

Numa primeira fase recupero algumas das últimas crónicas que fui colocando online ao longo do tempo, como forma de apresentação e, à medida que novos desafios forem sendo superados, mais prosa ilustrada por aqui surgirá.

Porque há sempre mais uma estrada deserta e fascinante para descobrir.
 

duchene

Well-Known Member
#2
Esta crónica ganha aqui lugar por se tratar da primeira incursão nas grandes distâncias e que lançou o mote para todas as conquistas posteriores.

A primeira centena e meia // 16 Mai 2010 // 155Km



Já cá tinha falado em ir a Baião, protagonizando assim a minha primeira volta acima dos 150Km. Ontem à noite ainda era esse o plano, mas quando me debrucei no GMaps para finalizar o percurso, reparei que grande parte dos troços de ligação, eram comuns à volta de há dois dias atrás.

Por isso comecei a sondar o mapa em busca de uma alternativa. Olhei para Arouca, olhei para Braga, mas o olho caiu mais a Este. Comecei a ver as estradas que ladeavam o Rio Douro, e a procurar pontes para o atravessar e, rapidamente, cheguei ao percurso que queria.

Assim, partindo de Valongo iria aproveitar o sossego das primeiras horas da manhã para ir directo ao Freixo, fazer a marginal do Douro até ao Torrão e continuar sempre ao lado do rio até Ribadouro.

Em Ribadouro atravessar para a margem sul, subir até Cinfães, continuar em direcção a Castelo de Paiva, atravessando novamente para a margem norte.

O troço de ligação para Valongo seria subindo a serra da boneca por Capela, Sobreira, Recarei, Campo e casa.

Finalizado (ver link), tinha este aspecto:



No papel digital pareceu-me uma boa ideia, mas só quando fui para o terreno é que percebi que tinha descoberto uma pequena grande pérola!

Com tudo isto, fiz a conversão e coloquei o GPS na bicicleta eram 3:10 da manhã...

Às 7h15 estava a saltar da cama para a grande epopeia. Queria bater todos os recordes que tinha em cima de uma bicicleta especialmente a maior distância, maior acumulado e maior tempo a pedalar. Por isso, nem acusei as poucas horas de sono.

Portanto, percurso absolutamente trivial até ao Torrão, seguindo a mais que conhecida marginal de Melres, Crestuma e Companhia.

Não coloquei um ritmo muito forte porque a jornada era longa, por isso cheguei a Torrão com 28,5 de média.

A partir daqui estava em território desconhecido de novo!

Saído de Torrão, apanho então a N108. Um quilómetro de paralelo a começar, mas rapidamente deu lugar a alcatrão de elevada qualidade. E começava uma da muitas subidas do dia.

Paisagens interessantes, subidas constantes e um ritmo muito certinho fizeram desta parte uma zona bastante interessante

Mais à frente em Piares, começava um dos mais fantásticos troços do dia.

Tinha o Douro espreguiçado à minha frente, não havia sinais de pontes nem travessias, excepto mais à frente a indicação para a barragem do Carrapatelo, que nunca chegei a ver.

Descida até à bonita margem de Pala, e uma pequena paragem para foto e contemplação. Continuei mais uns quilómetros sempre por borda d'água até a travessia do rio em Porto Antigo.

Estava radiante. E porque não dizer, orgulhoso! O tempo ajudava, o cenário era fabuloso, estava a ser uma brutal manhã de ciclismo!!!

Eis-me chegado à margem sul do Douro. E o GPS já avisava, subida perigosa!



Foram 8 quilómetros sempre a subir até Cinfães. Permiti-me parar a meio para a foto que abre este post e que mostra um pequeno exemplo do que quem faz esta volta pode encontrar para amenizar os quilómetros e as subidas.

E a brincar estava no distrito de Viseu!

Em Cinfães mais alguma subida, um pequeno troço de paralelo à saída da cidade e depois uma descida bem divertida, em direcção a Escamarão com uma zona de curvas bem rápidas.

De reforçar a qualidade exemplar do piso nos primeiros 100Km. Nada a assinalar, a não ser os pequenos troços de paralelo.

Nova passagem de rio e entrava no Distrito de Aveiro. Já tinha rolado em solo de 3 diferentes, por esta altura.

Aí apanhei a nova variante da N224 que já tem uma configuração de via rápida, e que me levou até à nova travessia em Entre-os-Rios. Metade do caminho a subir, metade a descer.

E porque não sou de me render com facilidade, o último obstáculo do dia era a subida da serra da Boneca, pela N319.

Ao contrário da subida para quem vem de Sobreira, esta é mais curta, mas mais acutilante. A disciplina adquirida nos 120Km anteriores foi fulcral. Consegui colocar um ritmo certo, alternando troços em crenques com troços sentado, cheguei ao topo, o que significava poder descansar durante os próximos quilómetros, aproveitando a descida.

Em Campo acabei por parar mais uma vez, para me oferecer a recompensa do dia: uma Fanta de ananás bem gelada, bebida quase de um trago.

Cruzei pouco depois o limiar estratosférico dos 150Km e, por momentos, esqueci-me que já há muito que não apanhava um empeno assim!

Chegada a casa e, além do cansaço, uma expressão radiante de quem fez hoje um dos melhores dias de sempre desde que me conheço em cima de uma bicicleta. :D

Uma última linha para vos dizer: Se ainda não fizeram, façam esta volta. O troço entre Torrão e Cinfães é mesmo qualquer coisa digna de nota e vale bem a pena parar na margem, em Pala, para apreciar o Douro.

E por favor, parem para comprar umas cerejas. Eu não o fiz e estou bem arrependido. :mad:


Dados finais:
Distância: 155Km
Tempo a rolar: aprox. 6h10m
Média final: aprox. 25,5Km/h
Acumulado: aprox. 2210m
Paragens: 4, que no conjunto não ultrapassaram os 10 minutos. 3 para fotos e uma para a Fanta.

Consumo:
4 Barrinhas da Decathlon
2 Pedaços de marmelada
1100ml de água com sais Decathlon
1 Fanta de Ananás
 
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duchene

Well-Known Member
#3
Pelo marco que representou, esta volta terá sempre um lugar de destaque na minha lista de feitos.

Os primeiros duzentos // 28 Jun 2010 // 223Km




Missão cumprida! Depois de 223Km, 3850 metros de ascenção e 9h40 em cima de um speedneedle, cumpri um dos meus objectivos do ano: Ultrapassar a barreira dos duzentos quilómetros, numa volta exigente mas também turística.

Com o percurso desenhado e carregado no GPS, consegui finalmente deitar-me a horas decentes para uma volta grande, ou seja, antes da 1 da manhã…

Isto foi especialmente importante uma vez que desta feita queria estar a sair de casa antes da 6h30 e portanto, levantar às 5h45 para os preparativos finais.

6h20 estava na estrada e segui com um ritmo muito calmo até, nos primeiros quilómetros. Não só pelos muitos quilómetros que ainda tinha pela frente, mas especialmente porque o início incluía logo a subida do carreiro em Baltar e também a subida de Paredes para Penafiel.

Ritmo certinho até Sobretâmega e, a conselho do Consciousness, subida para Baião pela antiga nacional. Lá tive alguma dificuldade em encontrar o acesso e quando perguntei, por acaso não andava longe do corte correcto para lá. Quem me indicou o caminho ficou muito admirado: “Você vai subir por lá? Vai ter de dar bem ao pedal!!!”. E sabem porquê? O que o malandro do José se esqueceu de contar era que a subida “antiga” começava logo com rampas de 26%! E com rebuçados semelhantes lá pelo meio. Mas custou-me muito menos do que a subida pela variante, já que esta é muito bonita, variada e interessante. Lembro-me de ficar muito admirado quando me surgiu pela frente a placa topomínica de Baião: “Já?!” Pensei.

De facto em menos de nada já estava na estrada que me levaria de encontro à já conhecida N101, vinda de Mesão Frio. Ascenção rápida e já estava a descer novamente a alta velocidade pela encosta do Marão.

Poderia ter descido até aos arredores de Amarante e iniciar a subida desde lá. Mas optei por cortar perto de Bustelo, indo apanhar a N15 na Rovilhã. Este troço de estrada já dava um cheirinho da beleza que me esperava nos quilómetros seguintes. Pena o estado de conservação. Aceitável a maior parte do trajecto mas com uma parte bastante mazinha no final. Nesses metros mais atribulados prometi que iria manter-me fiel aos Krilion Carbon da Michelin, que provaram, mais uma vez, ser de uma resistência assombrosa.

E estava assim na N15. Como o fogueteiro tinha avisado é uma subida constante, na volta dos 5 a 8% sem grande dificuldade, e que se faz com relativa facilidade, com a ajuda da maravilhosa paisagem.
Sempre em bom piso, e com a subida a correr a bom ritmo, começam a passar por mim inúmeros motociclos clássicos, nomeadamente FAMEL e CASAL. Até achei piada às 15 primeiras, mas depois disso, e ainda passaram bem mais, o fumo da gasolina de mistura 2T começou a ser um pouco incómodo…

Passada a zona habitacional, comecei a escalar então o Marão. Como o calor achou por bem começar a fazer companhia, parei numa das fontes improvisadas que me apareceu À beira da estrada. E que maravilhosa água fresca lá bebi! Soube-me pela vida e só tive pena de não poder ter aquela frescura comigo no resto da volta.

Mais um pouco e avistava a Pousada do Marão, o que significava mais uma dezena de quilómetros até lá chegar. Ascensão rápida, sendo que este tipo de subidas me agrada bastante, já que posso estabilizar no meu ritmo.

Passei a pousada e entrei num troço da estrada que não conhecia. Até ao Alto de Espinho, seria mais um par de quilómetros. De referir que desde a caravana de motos, passaram por mim 2 carros e um camião, certamente em direcção às obras do túnel do Marão. Fora isso, sossego absoluto.

Confesso que ia com bastante expectativa para a chegada ao Alto de Espinho, mas fiquei bastante decepcionado quando lá cheguei. Não tem nada de assinalável, nem mesmo uma BoaVista (é mais à frente na estrada) e, por isso, ficaria bastante desconsolado se fosse apenas lá e voltasse sem mais.

Mas como não consigo fazer isso, em boa hora tinha planeado a ida embora pelo Alvão. A paisagem no planalto da Campeã é extraordinária, pejada de minifúndio que parece saído de um postal ilustrado.

Na sardoeira apanhei a estrada que me levaria até ao Alvão, e logo com mais uma longa mas fácil subida, que ia fazendo elevar o acumulado do dia.

No final da subida vejo ao longe uma silhueta bem conhecida. Era o Monte Farinha! E mal descolei os olhos do monte vejo a descida! E QUE DESCIDA! Foram milhares de metros a descer a alta velocidade, com um olho na estrada e outro no fogo de artifício geológico que se perfilava perante mim. E a descida nunca mais acabava!! Mais uma vez, apenas se cruzaram comigo quatro automóveis, o que atesta da pacatez da estrada.

Entrada na zona do Alvão, saudado por abundantes manchas de pinheiros e mais zonas bonitas que me encheram a alma e deram alento para o resto da epopeia.

Corte para o Ermelo e começam as peripécias do dia. Como não tinha estudado bem a lição, assumi que as fisgas fossem visíveis da povoação em si. Fiz umas centenas de metros até Ermelo e depois numa de “deixa ver se é já ali à frente” fui seguindo uns 3 ou 4 quilómetros da estrada que seguia para Fervença. Mas a dada altura, não tendo visto mais do que uma nesga da cascata, decidi não arriscar e virei para trás.

Acabei por comer calmamente a bela (e gigante!) da sandes mista e do Sumol, num cafezito lá no Ermelo e voltei à estrada. Risos quando, 200 metros à frente, me deparo com a indicação para as Fisgas do Ermelo. Como já tinha perdido algum tempo com o desvio anterior, e não sabia a qualidade da estrada nem os quilómetros que faltavam até avistar alguma coisa, decidi não arriscar mais e continuar.

Mais uma subida longa e constante, para o momento decisivo do dia e que me ia custar bem caro. Como não estudei ao pormenor a rota, não reparei que a ligação que eu tinha previsto entre a estrada onde estava e Amarante era, durante 10Km, feita por CM ou seja, caminho municipal, o que equivale a estradão de terra batida.

Depois de perguntar, acabei por chegar à conclusão de que teria de ir por Mondim de Basto e seguir o Tâmega pela margem Norte e não pelo lado Sul, como tinha previsto.
Isto iria naturalmente implicar um acréscimo de quilómetros significativo.

Passei então por Mondim, e pela primeira vez estive no sopé do Monte Farinha, que me lançou o convite para o ir subir assim que possível. A visão é realmente impressionante, já que o monte, se desenvolve rapidamente, logo à saída da cidade, tomando a respeitável proporção que lhe é conhecida.

Mas a idílica visão em Celorico, escondia o pior que estava para vir. Como estava em estrada desconhecida, ia com bastante atenção e preocupação em encontrar o corte para Amarante, uma vez que a estrada tinha como destino Fafe. Por isso, como não abasteci na paragem para almoço nem em lado nenhum até Celorico, dei comigo na N210, a 20Km de Amarante, com uma réstia de água e com o calor no pico.

A confiar nas previsões metereológicas, a meio da tarde estaria um céu muito nublado com 58% de probabilidade de aguaceiros, com uma máxima de 26 graus. Na verdade o céu estava limpo e a temperatura superou os 35 graus. E ali estava eu, no meio de um deserto civilizacional.

Foram, por isso, os quilómetros mais excruciantes que já passei na estrada, com as subidas, maioritariamente as rampas longas típicas deste tipo de estrada, a sucederem-se durante 10 ou 12km, e sem nenhum sinal de civilização em toda a extensão da estrada. A água entretanto acabou e era impossível alimentar-me sem ficar com uma bola na garganta, o que estava a tornar a situação complicada. Com os quilómetros a sucederem-se rapidamente estava a ficar esgotado. Comecei a equacionar a necessidade de me desviar ainda mais da rota para ir a uma das povoações sobranceiras à estrada, mas o receio de mais quilómetros em vão, fizeram-me aguentar, cerrar os dentes e usar as forças com muita sensatez para chegar até Amarante.

Parei no primeiro café que me apareceu e tomei a melhor Coca-Cola dos últimos anos. Mais um litro de água que foi consumido em menos de nada. Ficou a lição que já deveria saber. Em território desconhecido, não se enjeita NENHUMA possibilidade para repor o stock de víveres essenciais.

Para vir embora, escolho novamente a N211-1, apesar de saber que ia apanhar 3 rampas mortíferas em Ataíde. O piso aqui é bem melhor que a N15 e só isso é suficiente para me fazer aguentar o esforço extra.

Duas paragens entre Amarante e a N15, primeiro para me refrescar (poderei dizer, molhar da cabeça aos pés) num fontanário de água fresca e depois para mais litro e meio de água, antes das penosas subidas. O alívio do “banho” durou pouco mais de 5 minutos até estar novamente seco e a água ingerida rapidamente saía pelos poros.

Vencidas as 3 rampas, e com a pedalada já em modo “super económico” fiz o troço da N15 até Penafiel e depois a variante para Paredes.

Respirei fundo para a última dificuldade do dia, a subida de Baltar. Com o aproximar da meta, o psicológico fez a sua magia e enfrentei os restantes quilómetros com um alento e energias renovados.

Cheguei finalmente a Valongo, 12 horas depois de ter saído, com duas centenas de quilómetros nas pernas, completamente exausto, com menos 2 quilos e meio, mas com um enorme sentimento de superação e de missão cumprida.

No entanto, terei de fazer ainda mais algumas voltas abaixo dos 200 quilómetros até tentar novamente uma distância tão grande. Ainda tenho de trabalhar um pouco melhor a resistência e a ponderação para não ter percalços como o de Celorico.

Por isso, voltarão as voltas de 120 a 150km, com a já falada volta com comboio pelo meio e claro, uma perninha no BTT para não perder a técnica.

Ficam aqui os dados da telemetria para registo:
(o sensor de velocidade actuou de forma errática, e portanto a quilometragem do Garmin Connect é inferior ao real. No entanto como tinha a certeza que, com as voltas adicionais que dei teria de fazer mais do que os 207km da rota original, fui hoje confirmar com o export em GPX e daí os surpreendentes 223Km)



Consumos:
Sólidos: Uma sandes e meia mista + dois cubos de marmelada + 2 embalagens de gel + uma barrinha/bolo de maçã
Líquidos: Aproximadamente 7 litros, entre água e refrigerantes (ajudam a levantar a moral!)
 
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duchene

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#4
Esta volta ilustra na perfeição como o comboio pode ser um parceiro importante na descoberta de novas rotas.

Frecha da Mizarela · o corolário de 2010 // 31 Dez 2010 // 155Km

Estou a aproveitar cada vez mais as possibilidades que o comboio proporciona em termos de criar novas bases para iniciar as minhas voltas, o que expande consideravelmente a área geográfica que consigo alcançar.

Por isso, desta feita voltei a usar a o comboio como rampa de lançamento para mais uma volta.

Já há largas semanas que andava a planear uma visita à Frecha da Mizarela e por conseguinte, a conquista da Serra da Freita. As condições metereológicas andaram sempre desencontradas da minha disponibilidade e, por isso foi in extremis que consegui realizar esta empresa ainda em 2010.

Dado que os dias estão ainda muito curtos, as voltas têm de ser pensadas com cuidado adicional, sobretudo para não anoitecer quando ainda estiver relativamente longe de casa.

Assim, e também tendo em conta que estive afastado das voltas grandes várias semanas, decidi ficar-me pelos 150Km nesta incursão.

A metereologia manteve-se fechada mesmo até à última da hora e só decidi avançar com a volta, minutos antes de partir para o comboio.



E quase que era uma ideia esfumada. Apesar de ter acordado à hora certa, 6h30, por algum motivo (desconfio que foi da jantarada de véspera no Tatana!), devo ter piscado os olhos durante uma hora exacta. Isto porque passei por vários relógios e só reparei nos minutos. Tudo estava certo, mas uma hora mais tarde que o previsto! Foi por isso com grande surpresa que, quando vim ao mac verificar o horário do comboio, vi finalmente as horas certas no relógio. Eram 8h!

Ou seja, apesar de ter comboio às 8h31, iria iniciar a viagem em Cacia uma hora mais tarde do que o previsto. Fiz umas contas rápidas com a média prevista, fui buscar as luzes de presença e decidi avançar na mesma. A partir de Valongo preciso de apanhar primeiro o comboio para Campanhã e depois tenho 6 minutos para mudar para o comboio da linha de Aveiro. O transbordo correu sem problemas e à saída do Porto o tempo afigurava-se estável e portanto de acordo com as previsões mais optimistas.



A viagem até Cacia demora 1h10m já que o comboio faz muito poucas paragens a sul de Gaia e, portanto, às 9h40 estava a arrancar de Cacia.

O percurso foi desenhado com início em Cacia seguindo depois para Albergaria, até Arões e daí atacar a Freita pela encosta sudoeste em direcção à frecha da Mizarela.

Viagem até Albergaria sem grande história, pequenas subidas e bastante rolante. Serviu sobretudo para acertar a pedalada e encontrar a velocidade de cruzeiro.

Cruzada a N1 começa o percurso verdadeiramente interessante pela N16, em direcção ao Rio Vouga. Começa aqui um troço muito bonito, pese embora seja desolador ver tanto eucalipto a substituir o que deveria ser uma belíssima passagem de floresta autóctone.

Registei com curiosidade uma propriedade na margem sul que tinha direito a uma estreita ponte pedonal de arame para uso exclusivo.

E, distraído com as vistas do rio, só mais tarde reparei que acima da minha cabeça, na antiga via férrea, já existia uma ciclovia. No entanto, pelo que pesquisei ainda não está inaugurada. Além disso, na meia dezena de quilómetros que a acompanhei, até que ela cruza o rio numa bonita ponte de arco, não existia nenhum acesso da estrada para a ciclovia, e muito menos indicações de como lá chegar.

Entretanto a N16 atravessa para para Paradela e eu abandono-a, mantendo-me na margem norte ao longo da EM569 em direcção a Parada. Aqui acentua-se a toada de subida e até à Mizarela, quase 30 quilómetros depois, será quase sempre a subir! No entanto a pendente média é agradável nestes primeiros quilómetros e a paisagem já se começa a libertar do eucalipto e a tomar tons mais próprios desta altura do ano.



A estrada é francamente má nos primeiros quilómetros, melhorando depois algures em Couto de Cima, onde já foi beneficiada. Parada é uma pequena mas muito simpática aldeia, curiosamente com um traço mais moderno que as restantes aldeias das redondezas.



Pouco depois apanho alguns quilómetros da N227 que segue em direcção a Vale de Cambra. A partir daqui já não há descanso e a subida é constante até ao cruzamento para Arões. E em Arões piora, com as percentagens da pendente a subirem para valores com dois dígitos em algumas rampas.





Em breve a Freita apresenta-se por inteiro e começa-se a rir para mim... Estava nos 600m e ainda faltavam subir mais 400. Desde Arões até ao topo foram 9Km a 6.2% de inclinação média, sendo que nos últimos quilómetros, já na encosta da Freita, apareceram as rampas de 15% de inclinação.



A ascensão foi feita pausadamente, mas com uma enorme motivação. Olhando em volta a paisagem é sublime: Do deserto de quartzo daquela vertente da Freita até à muralha do Caramulo lá no Sul, sem esquecer Montemuro que espreitava ali ao lado. Uma verdadeira delícia!



O ipod parece que adivinhou a chegada ao planalto e presenteou-me com Ecstasy of Gold do Ennio Morricone, como que a anunciar a conquista e apresentando a respectiva recompensa. Afinal de contas, chegar aos 1020m de altitude já com 1470m de acumulado, e em apenas 60Km, é digno de registo...



Lá em cima perdi-me em fotografias, e só não tirei mais porque os minutos eram contados. Afinal de contas ainda faltavam mais de 80Km para terminar a jornada. O planalto é deslumbrante e todas aquelas estradas alternativas eram uma verdadeira tortura...



Depois, sem saber bem porquê, disparei planalto afora até encontrar as fisgas. Devo ter passado em Cabacos em excesso de velocidade, mas o pequeno descendente, o entusiasmo e as suaves curvas convidaram a dar ao pedal.

Nas fisgas mais uma paragem para documentar a razão primordial desta viagem. Deu ainda para olhar a estrada que vai para Póvoa das Chãs e perceber que não seria boa ideia descer 500m para ficar de frente para as fisgas. A inclinação é descomunal ao vivo e acredito que não ande longe dos 1.2Km a 12.3% anunciados pelo RideWithGps, com 23% de pendente máxima. Fica para uma próxima, a descer!







E por falar em descer, estava na hora de abandonar o topo da Freita e descer em direcção a Arouca. A descida foi feita no limite que entendi ser seguro dado a humidade que ainda andava escondida da chúva dos últimos dias. Mesmo assim deu para me entusiasmar, sempre com um olho na fantástica paisagem que por todos os lados se desenrolava.

Apanhei a N224 que me levaria até Castelo de Paiva, um pouco antes de Arouca, em Chão de Ave. A viagem de e para Arouca é sempre curiosa uma vez que a vila se encontra completamente encaixada no meio de vários gigantes e só mesmo no último minuto é que nos livramos das paredes em volta para encontrar algum espaço "para respirar" quase no centro de Arouca.

Entrava agora no troço fantasma da N224. Foram longos os quilómetros sem vislumbrar vivalma. Os automóveis só se fizerem notar novamente nas redondezas de Real e Paradela. O alcatrão aqui está mesmo muito danificado e valeu o sossego da estrada na descida uma vez que o melhor piso estava quase sempre em contra-mão. Com as devidas cautelas sempre fui aproveitando o descanso. Mesmo assim muita pancada levou a máquina e o ciclista...



Atravessado Castelo de Paiva e o Rio Douro, restava atacar a última dificuldade do dia, a subida da Serra da Boneca, via Capela. De tantas vezes que já regressei a casa por ali, não me recordo de um dia em que tenha feito a subida com tanta regularidade e rapidez como desta. Dei comigo a fazer jogos de eficiência entre relação de mudança, pulsação e cadência o que certamente ajudou a distrair nesta fase mais conhecida do percurso e que, por isso, por vezes é a que custa mais por não oferecer a motivação adicional de outras zonas.

Em Sobreira pequena paragem para colocar as luzes de sinalização e depois foi o pequeno troço até casa a bom ritmo para evitar ao máximo andar na estrada com pouca luz.

Assim, 8h20 depois de ter saído de Cacia, estava de regresso a casa. A metereologia ajudou e não apanhei um único pingo de chuva durante o percurso o que só reforçou a decisão acertada de sair de casa e arriscar.

Como já tinha dito, foi um excelente corolário para o ano de 2010. Pelo caminho muitas alternativas e muitas novas viagens me passaram pela cabeça e muitas outras certamente irão ainda surgir.

Por isso, há que começar a pensar na próxima aventura!


Para finalizar, o percurso e os dados rápidos:



 
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duchene

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#5
Provavelmente umas das voltas mais duras e recompensadoras que cumpri até hoje. Subi 3 das principais elevações da região numa volta a todos os níveis memorável.

Marão + Alvão + Viso · O êxtase da subida // 15 Jan 2011

Porquê o Alvão?

Porque quando olho para um ponto chave no mapa, tenho de passar por lá, dê as voltas que der. E desta feita, foi a aldeia de Lamas de Olo que me chamou a atenção. Daí até pensar numa forma para ir até lá e voltar, foi um piscar de olhos. Tudo bem misturado - e com um bónus chamado Viso que aparece à última hora - temos o irresistível cocktail de quilómetros para mais um passeio memorável.

Mais uma vez utilizei o comboio como rampa de lançamento, evitando assim fazer preciosos quilómetros por zonas que já conhecia. Desta feita ao invés de levar o carro com a bicicleta para Ermesinde e apanhar aí o comboio directo para a Régua - o que implica regressar a Ermesinde e empacotar tudo de novo para voltar a casa - optei por sair directo do apeadeiro do Suzão, mesmo que para isso tivesse de realizar um transbordo em Penafiel.

Ainda não conhecia este sistema e isso notou-se. Em Penafiel andei à procura de uma bilheteira que não existe - os bilhetes são comprados no bar da estação! - e depois estive 10 minutos ao frio à espera do comboio que me levaria até à Régua, quando poderia ter estado, como toda a gente, dentro do urbano que me levou até Penafiel, uma vez que esse só regressa para o Porto 15 minutos depois de partir o comboio para a Régua. Numa próxima já sei: o bilhete para a segunda parte da jornada compra-se no comboio e portanto só saio do confortável urbano quando entrar na plataforma o interregional!



A viagem para a Régua é sempre um atractivo por si só. A partir de Pala o comboio agarra-se ao rio para não mais o largar. É sempre com alguma nostalgia que revejo Porto Antigo, os magníficos pomares da aldeia de Barco e o imponente maciço da Serra das Meadas que, do alto dos seus 1100m, nunca deixa de me amedrontar tal a forma abrupta com que se lança sobre aqueles que a contemplam. Na estação de Rede, onde há sempre uma paragem mais longa, os simpáticos revisores e o maquinista não se contiveram e ainda me chamaram, tal era a curiosidade sobre a "estranha arquitectura" da BMC. Assim entre duas de conversa e uma espreitadela à cabina do comboio, rapidamente estava a chegar ao destino.

O plano original era então seguir a N2 entre a Régua e Vila Real para cruzar depois o Alvão de Sul para Norte. Há alguns dias tinha lido a notícia de que a N2 estava interdita ao trânsito por causa de uma derrocada que bloqueara uma das faixas de rodagem. No entanto e apesar da notícia referir que era feito um desvio, nunca imaginei que fosse um senhor desvio como aquele que percorri!

Os primeiros dois quilómetros à saída da Régua apresentam uma estrada aborrecida, com perfil de variante urbana, que estava desejoso por abandonar. A verdadeira N2 só se revela quando, timidamente, somos encaminhados para uma saída daquilo que agora é, primordialmente, o acesso à A24.

Aqui começa então a N2 tal como já a conhecia do troço entre a Régua e Castro Daire: uma estrada encorpada, de boa qualidade sem trânsito e com uma interessante envolvente. A subida é constante, à volta dos 5%, e depois de se marcar um ritmo, sobe-se quase sem dar por ela. Curiosamente, e ao contrário do que estava à espera, a estrada não sobe sempre. Depois de passar Lobrigos e até Santa Marta de Penaguião é praticamente sempre a descer. E continuaria a descer por mais dois ou três quilómetros não fosse o facto de surgir, logo à saída da vila, o tal desvio.



E que desvio meus amigos... Na altura em que a tendência era descer, de imediato começa a escalada a toda a velocidade pela encosta do Marão acima. Isto por que a alternativa era a N304 em direcção a Mafomedes que rapidamente me puxava para bem longe da N2 e, sempre, encosta acima. O piso continuava excelente, excepção feita a um pequeno troço dentro da aldeia de Fornelos em que andei por empedrado (não confundir com Pavé que será alcatifa ao pé disto!).

A subida era de facto uma constante. Apesar de haver bastantes pontos de recuperação, com pequenas descidas ou planos, a tendência era maioritariamente a de subir. E, ironia das ironias, esta foi a alternativa que tinha considerado em primeiro lugar para fazer o percurso até Vila Real, mas acabei por não concretizar devido aos 6 quilómetros extra que implicava, numa zona bastante acidentada. Mas acabou por ser um feliz acaso porque a envolvente é magnífica. A dada altura já nem olhava para a estrada onde circulava mas sim para o fantástico espectáculo que me rodeava e, sobretudo, para o rail reluzente lá ao fundo, que me fazia adivinhar, pela sua inclinação e altitude, que mais uma subida me aguardava.



Podem ver uma panorâmica de um dos pontos interessantes da subida: AQUI

E mesmo quando pareceu surgir uma trégua, logo à saída de Fornelos, numa inclinada descida para o "tanque fluvial" lá do sítio - muito aprazível por sinal e que me teria valido um banho se no pico do Verão estivéssemos - logo de seguida a subida era descomunal, com rampas de 10 e 12%, aliás bastante comuns ao longo dos 16Km do desvio. E as rampas endureceram nesta segunda parte já que era preciso transpor mais uma elevação de respeito até Pomarelhos (acima dos 600m) antes de regressar à N2, já muito perto de Vila Real.

Foi, por isso, um desvio que recomendo vivamente! Tanto pela dificuldade que representa mas, sobretudo, pela tranquilidade e envolvência. Não admira que os locais prefiram dar a volta pelo IP4+A24 para ligar a Régua a Vila Real. O percurso pela nacional será apelativo apenas a quem viaja em passeio, uma vez que o constante zigzaguear pela serra não é nada prático para quem esteja com pressa...

Chegado a Vila Real estava na altura de atacar a subida do Alvão. Modéstia aparte, com o acumulado que já trazia e dadas as rampas que já tinha enfrentado olhei para o Alvão com menos preocupação do que aquela que me assaltou quando desenhei o percurso em casa. O aquecimento tinha sido bom e sentia-me com confiança para a subida.

No meu percurso, o acesso à única estrada que atravessa o Alvão vinda de Vila Real, foi feito via Escola Superior de Enfermagem. Isto implicou começar logo com rampas de 12 e 14% por entre as casas que povoavam o sopé do Alvão, em ruas de paralelo mal calcetado. Só quando apanhei a estrada "principal" é que percebi o porquê do Zé ter dito que a subida era relativamente acessível! De facto, passei a ter inclinações muito mais modestas de 6 a 8%, que fizeram com que o resto da subida fosse muito mais descontraída e suportável, além do piso ser muito melhor.



Assim, lá fui eu encosta acima com a visibilidade a reduzir-se a cada quilómetro. Um denso manto de nevoeiro cobria as últimas centenas de metros da serra e, por isso, não foi muita a paisagem que consegui ver. Mesmo assim confesso que gostei bastante, já que adoro a atmosfera etérea que estes mantos densos criam. A visibilidade no topo não seria superior a 50m, conseguido-se ver pouco mais do que as a primeira linha de mesas de piquenique na beira de estrada, junto à barragem cujo espelho de água jamais consegui ver.



Ainda a festa estava a começar e já o acumulado metia respeito...



O roteiro incluía, claro, o pequeno desvio para atravessar a aldeia de Lamas de Olo. Aqui tive a grata recompensa de a aldeia estar numa concha geológica que aqueceu mais rapidamente que o resto do topo da serra, criando uma nesga de céu limpo e visibilidade elevada em comparação com a restante subida.



E que dia bonito estava lá no alto! É uma daquelas aldeias em que o tempo parece passar mesmo muito devagar ao som do ribeiro cristalino e dos badalos do gado. E aqui não podia falhar a foto com a placa de madeira que assinala os limites da aldeia!



A estrada que percorre o planalto do Alvão é lindíssima e, de ambos os lados, a paisagem autóctone faz as minhas delícias, já que tenho um enorme ódio de estimação pelo eucalipto, esse eco-parasita. E toda a serra, rica em granito, é um depósito natural de água. Por todo o lado pequenos fios de vida escorriam das bermas e por entre os penedos.

Mas o melhor ainda estava para vir. Faço um par de quilómetros a rir-me sobre o facto do Zé ter falado em orientar-me lá em cima como os pombos, tendo como referência o Monte Farinha. Mas se eu não conseguia ver o monte... estava condenado a "voar" em círculos!

Claro que não seria um problema dar com o caminho certo nesta ocasião, porque a estrada principal é que mandava e essa era sempre em frente!

Mais eis que surge, plantado na berma, um penedo mais colorido que os outros, pintado de branco e com uma garrafal inscrição: "Mondim de Basto". E não é que do lado direito do penedo, o céu estava perfeitamente limpo? Lá ao fundo, o recorte da inconfundível silhueta do Monte Farinha. Uma trégua que permitiu também comprovar a privilegiada vista que o Alvão nos oferece e o paraíso geológico que o rodeia.



Começam aqui os 1000 ou 1500m que me fizeram abrir a boca de espanto. É um troço deslumbrante, em que o alcatrão é quase branco e nas bermas se alinham os pinheiros, qual paisagem alpina. Indescritível!



Segue-se a igualmente bela descida para Mondim de Basto, feita ao longo do sopé da crista que culmina com a Senhora da Graça. O convite que o Monte Farinha nos lança, sempre que perto dele passamos, é muito forte, mas desta vez teria de esperar, até porque tinha um encontro marcado com o Diabo, uns quilómetros à frente...

Começa aqui um dos troços menos interessantes do passeio. A ligação do Monte Farinha até Mondim não tem nenhum ponto de interesse em especial e o percurso até Celorico é de má memória para mim. Por isso, foi altura de começar a organizar as ideias e pensar como iria ser feito o ataque ao Viso.

Apesar do espicaçar feito pelo Zé na sexta, já andava a estudar o Viso, no papel, há algum tempo, mas sem nunca dar a pedalada decisiva e de o enfrentar. No seu blog, o Luís Manuel tem um "one shot" em que percorre Lameiras, Senhora da Graça e o Viso na mesma volta e, em sintonia com o ele escreve, por todo o lado lia que o Viso era de facto mais complicado que o seu vizinho de Mondim. Assim, quis saber de que fibra sou feito e, por isso, decido atacar o Viso sem paragens. Sentia-me com força para isso e, a partir do alto, o percurso ia acalmar um pouco em termos de dureza o que permitiria gerir as energias que sobrassem até casa.

A subida do Viso, desde Mondim, está dividida em duas partes. A primeira é uma fotocópia do que se poderia encontrar nas zonas mais complicadas dos primeiros 60% da Senhora da Graça, sem cotovelos mas com iguais inclinações sempre entre os 8 e os 12%. Só que depois, enganados por uma curta descida, entramos no verdadeiro inferno.

A ascenção foi feita desde logo a um ritmo muito muito baixo. Curiosamente para esta volta levei no ipod o concerto Big 4 na Bulgária (Anthrax, Megadeth, Slayer e Metallica) o que implicava ouvir trash metal furioso ao longo de toda a subida, numa altura em que o que precisava era do embalo gentil da Suzanne Vega ou da Corinne Bailey Rae... Mas, partir a batida da música e ritmar a reduzidíssima cadência de pedalada com o elevado ritmo sonoro ajudou a ocupar a cabeça e a ultrapassar esta primeira parte. It's all a mind game...

Mas, depois da descida, chegamos a outro patamar...

Na volta de Cabeceiras de Basto, lembro-me de ter passado aqui no cruzamento que vai para o grand finale do Viso, mas nessa altura consegui fugir. Desta vez, estava destinado a enfrentar o sadismo de quem desenhou aquele troço de estrada.

Só a visão inicial é assustadora. Do nada surge uma parede que, sem respeito pelo pobre coitado que já tinha 85km e 2500m de acumulado nas pernas, se apresenta com uns simpáticos 14% mostrando qual vai ser a toada até ao final. E depois só piora. Rapidamente, estamos nos 17% e... bem depois é o cotovelo que acredito que seja a estocada final para muita gente que tem o atrevimento de desafiar o Viso, já que aí foi preciso morder os dentes e literalmente proibir-me de pôr o pé no chão, tão perto que estava do final. São largas centenas de metros sempre acima dos 14% com o pico nos 19%. O ritmo é penosamente lento atingindo um mínimo histórico: 28 rotações por minuto e uns estonteantes 4.5Km/h!

Apesar de estar um dia fresco, eu suava em bica enquanto, a cada pedalada, tentava vencer mais um metro daquele terrível alcatrão. E aqui entra em campo a preparação psicológica que ao longo do tempo se vai apurando e que é especialmente importante nestas tiradas longas. Manter a cabeça ocupada em não pensar na subida e treinar o "já só falta" em oposição ao "ainda falta tanto". Isto traduziu-se numa maior tranquilidade perante o obstáculo, o que levou ao abaixamento considerável da frequência cardíaca, mesmo numa situação de carga extrema como era esta. Normalmente, não seria preciso uma subida tão complicada para fazer disparar os batimentos cardíacos acima dos 185bpm, o que faz logo soar o alarme do Garmin. Desta feita, consegui manter-me abaixo dos 172bpm durante o percurso todo. Naturalmente que a (muito) baixa cadência de pedalada também ajudou, mas é este tipo de gestão que me interessa aprofundar e melhorar, uma vez que o meu objectivo é a regularidade e não a rapidez. Ainda tenho muitas arestas para limar, mas aos poucos vou aprendendo a ler o corpo melhor e a tirar partido disso ao longo dos quilómetros.

Com o horizonte cada vez mais dominado pelo azul do céu, sinto que o final da subida está próximo. Como não conhecia, ainda hesitei depois de atingir o penedo que efectivamente marca o final do prémio de montanha. Por isso segui as indicações em direcção à capela. Mas a ligeira descida, uns metros à frente, logo confirmou que o Viso estava de facto conquistado.



Ainda assim optei por fazer o resto do desvio e fui até à capela para ter uma visão ampla da envolvente, cumprindo o troço completo até à cota mais alta. E não são muitas as vezes que temos oportunidade de estar a um nível mais alto do que um gerador eólico, mas ali é precisamente isso que acontece.



No total, desde a viragem em Celorico até ao penedo no topo do Viso, passaram os 63 minutos mais duros que já enfrentei nestas lides do ciclismo de estrada.

Porque o Viso é de facto como o pintam. Achei-o mais complicado que a Senhora da Graça, não só porque a dificuldade é crescente e o final muito mais demolidor, mas especialmente porque assim de repente não se dá 5 tostões por ele. É um monte "normal" sem aquela geologia assustadora do Monte Farinha e não é muito famoso. Mas esconde uma dureza acima da média e por isso deve constar na lista de desafios a conquistar por todos os que gostam destas maluquices. Com ou sem paragens pelo caminho, chegar lá acima, é extremamente recompensador.



O Viso estava então ultrapassado, mas o dia ainda não estava ganho. Faltavam mais de 70km para chegar a casa os minutos avançavam rapidamente. A descida é feita a um ritmo alto e o troço no sopé é muito agradável, com pequenas aldeias agrícolas aqui e ali num suave sobe e desce. Em Silvares regresso definitivamente à civilização ao apanhar a N207 em direcção a Felgueiras. A Santa Quitéria não incomodou muito já que a estrada onde eu seguia, contornava o sopé da serra pelo lado Sul.



Depois de atravessar Felgueiras estava na hora de testar o troço sugerido pelo Indy. Assim tomei a direcção de Lagares e deixei-me levar pelo GPS. Quando, num corte para o interior comecei por apanhar logo duas rampas complicadas, estive tentado a duvidar da eficácia do desvio. Mas foi só uma dificuldade momentânea já que, apesar de implicar uma volta maior, esta alternativa é muito menos massacrante do que a subida directa de Barrosas. Em Regilde foi altura de comer qualquer coisa diferente das barrinhas e do gel, para depois enfrentar a última grande dificuldade do dia: Subir o restante da encosta da Serra do Relógio. A subida final é constante mas de declive suave o que facilita a progressão e acaba por ser simpático para as pernas, que já tinham a sua quota diária de subidas complicadas preenchida.

Aqui os dias curtos fizeram-se notar numa situação algo complicada. Ainda não tinha chegado a Barrosas e já a visibilidade era notoriamente reduzida. Tinha colocado as luzes de presença há uns quilómetros atrás, mas preocupava-me sobretudo o troço isolado, sem iluminação pública, que iria apanhar de Barrosas até à N106. A réstia de luz solar permitia perscrutar a estrada em frente por forma a evitar os buracos maiores, mas o maior receio era com os carros que pudessem vir mais à vontade naquela estrada menos movimentada. O facto de ser um final de tarde de Sábado ajudou a que o movimento de automóveis fosse muito reduzido e assim passei esse bocado sem problemas. Ainda assim, numa próxima prefiro evitar o sobressalto. Com as horas de exposição solar a aumentarem à média de 2 minutos por dia, daqui a mais algumas semanas já haverá alguma margem de segurança para chegar a casa com iluminação natural.

Chegado aos arredores de Raimonda estava na hora de carregar a fundo e dar tudo por tudo para chegar a casa o mais rapidamente possível, escapando à noite já instalada. Conhecia bem o perfil da estrada e sabia que podia aumentar o ritmo uma vez que não havia subidas dignas de nota até ao final. Reflexo disto foi o facto de que, mesmo com o cansaço acumulado de uma volta bem dura, os últimos 30Km foram percorridos precisamente à media de 30Km/h, com as longas rectas de Carvalhosa, Sobrão e Frazão a serem feitas bem próximo dos 40km/h.








Cheguei a casa exausto mas radiante. Poderá ter sido exagerado, ou se preferirem "guloso" cumprir este passeio gourmet numa altura em que os dias são curtos e a forma não está no auge, mas estava aqui a remoer e por isso, como os dias favoráveis são raros neste inverno, há que aproveitar até ao último centímetro de alcatrão. Balanço muito positivo e mais uns fantásticos quelhos desbravados para juntar à conta pessoal.
 
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duchene

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#7


Como sempre, tudo começa com um olhar para o mapa, para a linha imaginária que limita uma área de 100km/110Km em torno da minha cidade, Valongo. Depois é escolher uma cidade, um local, uma zona que me diga algo e desenhar uma forma de lá ir, e de voltar.

Não sou propriamente conhecedor das clássicas rotas do ciclismo. Por isso faço as coisas um pouco por instinto, somando as dicas que me vão dando, o que vou lendo de outras voltas e o meu interesse pessoal em determinado trajecto. Tudo agitado, misturado e atirado ao mapa, normalmente toma a forma de mais uma maluqueira ciclística, a conjugar zonas clássicas, com as mais improváveis ligações.

Desta feita foi Cabeceiras de Basto que me chamou a atenção. Ainda me martela na cabeça o périplo de 240Km que quero fazer por aquelas maravilhosas terras, mas desta feita o projecto teria de ser a uma escala um pouco mais reduzida. Decidi por isso fazer o percurso Valongo, Guimarães, Fafe, Lameirinha, Tour na barragem do Ermal, S. Torcato, Guimarães de novo, Vizela + Serra do Relógio, Paços de Ferreira, Lordelo, Sobrado, Campo e de volta a Valongo.

Saída manhã cedo, como habitualmente, para aproveitar o primeiro par de horas mais fresco. Mas desta feita a saída foi marcada por um pequeno contratempo com o desviador dianteiro. De véspera tinha estado a colocar o desviador SRAM Force com a braçadeira de carbono e o ajuste não ficou perfeito. Com visitas ao jantar, que acabou invariavelmente tarde, não tive oportunidade de testar tudo como devia de ser e de manhã paguei essa factura. A entrada da corrente no prato 50 não era constante o que me obrigou a voltar para trás 100m depois de começar e reajustar o desviador. Felizmente nada que comprometesse o dia, uma vez que em meia hora estava o problema resolvido, e precisamente um minuto antes das 7 da manhã estava novamente na estrada, agora definitivamente em direcção ao meu objectivo.

Conhecia bem a estrada até Guimarães e um pouco mais acima, até ao cruzamento que corta para Felgueiras. Daí para a frente já não passava há uns anos. Até Guimarães o percurso é maioritariamente rolante, com apenas um par de subidas ligeiras e, por isso, foi com rapidez que cheguei à cidade berço.

De Guimarães até Fafe a estrada é igualmente acessível e em menos de nada cheguei à malha urbana de Fafe. Numa tendência que domina agora, as imediações das cidades estão a ser lentamente desprovidas dos troços originais de estrada nacional, para dar lugar a variantes mais directas, menos subjugadas ao recorte do terreno mas sem interesse absolutamente nenhum em termos ciclísticos. Por isso, de véspera, tive que fazer alguma ginástica para desenhar um percurso que evitasse a variante Guimarães-Fafe e, mais importante, que navegasse por entre a cidade, até conseguir apanhar novamente a estrada nacional, já em direcção a Cabeceiras.

Na teoria, no google maps, parecia algo complicado, com bastantes viragens dentro do centro da cidade. Contudo, no terreno, revelou-se bem mais fácil. O único senão foi o facto de que o centro da cidade de Fafe é todo em pavé e, por isso, houve que levar umas valentes sacudidelas. Será fácil imaginar o quão divertido foi tentar ler o ecrã de um GPS que não passava de um borrão cinzento, tal era a trepidação!

Mas lá consegui encontrar a N311 que me levaria até Cabeceiras, com um rebuçado pelo caminho que nem eu estava a contar. Um pequeno erro na elaboração do mapa levou a que fizesse parte do percurso até Moreira de Rei por uma estrada paralela, por onde passa a Volta a Fafe, a julgar pelas escritas no chão e que me presenteou não só com um agradável percurso mas também com um par de generosas rampas para acordar e preparar o que aí vinha.

Em Moreira de Rei já estava então novamente na N311, pronto a começar a subir. Não sabia bem para onde, mas ataquei a subida com imenso gosto. As eólicas ao fundo, o verde rasteiro e o azul do céu, distraíram-me da inclinação e da duração da subida. Mas nem seria preciso já que com um perfil constante este é precisamente o tipo de subidas que mais gosto, e que ajudam a estabilizar ritmos e a organizar a nossa cabeça para o resto da jornada.

Só no topo da subida, ao ver a placa "Lameirinha", percebi que estava numa das mecas do Rally em Portugal. A descida que se segue é uma boa recompensa, se bem que, a experiência que vou ganhando já me permite antever que quando atravessamos uma ponte depois de uma boa descida, é sinal de que vamos voltar a subir.

E assim foi, mais uma valente subida do outro lado do vale, com a aproximação a Cabeceiras pelo lado de Outeiro. Esta zona conheço relativamente bem, já que pelo menos um par de vezes por ano lá vou. E como são sempre boas as lembranças que trago de Cabeceiras desta vez não ia ser diferente. Não estivesse eu de volta, desta feita em autonomia e movido apenas pelo meu esforço.



Pequena paragem no centro para abastecer e para comer duas ameixas compradas num minimercado da terra. Aliás, cortesia do imenso calor que se fez sentir ao longo de toda a volta, foram dos poucos sólidos que consegui comer. Líquidos, por seu lado, não faltaram e as paragens para comprar água ou para refrescar, sucederam-se.

Saída de Cabeceiras em direcção a Paredes de Coura, com mais uma longa subida à saída da cidade, por Paizela. Os planaltos das terras de Basto são sempre complicados de atingir, mas depois a paisagem é imensamente compensadora. Não matando, estas subidas não deixam de ser traiçoeiras e vão fazendo mossa.

Depois da longa subida foi a vez da descida para Paredes de Coura. Asfalto de óptima qualidade e um suceder de curvas e contracurvas numa zona densamente arborizada, que ajudaram e muito a minimizar o calor. Foi um troço muito divertido e bastante bonito, com a vista do vale que se espreguiçava à direita, as árvores em túnel e o delicioso pormenor dos resguardos da estrada ainda em cimento. Felizmente para a componente turística, os rails de metal ainda não chegaram aqui...

Passada Paredes de Coura, apontei ao segundo objectivo do dia: A albufeira do Ermal. Mais um troço extremamente interessante entre Pombal e Mosteiro, o vértice mais a Norte desta aventura. Zona bastante arborizada, com a barragem a espreitar timidamente por entre a vegetação. Aqui rolei a bom ritmo, mas ainda deu para uma pequena paragem a apreciar um belo espécime de gado barrosão que, com o calor já no pico, inteligentemente se colocou dentro de água a refrescar. Eu faria, com todo o gosto, exactamente o mesmo...

Embora a ideia inicial fosse ir por Anissó, em boa hora mudei os planos, para fazer mais alguns quilómetros em torno das margens do Ermal. Depois de alguma indecisão, bem patente no track GPS, lá consegui atinar com a estrada para Taboadela.

E que estrada! As primeiras centenas de metros eram uma sucessão de rampas acima dos 20% e só estabilizou com a descida para a margem da albufeira, onde tive o primeiro vislumbre a sério do tranquilo espelho de água. Não sem antes passar num mini Stelvio, embora com apenas dois cotovelos e a descer, mas que me fez esboçar um largo sorriso.



Seguiu-se um agradabilíssimo troço à borda d'água com um dos melhores momentos do dia a aparecer sob a forma da Barragem de Guilhofrei. Eu tenho uma pequena fixação com estas estruturas e por isso, parei a meio do curioso tabuleiro da travessia e andei por ali a espreitar todos os ângulos da barragem. Com mais tempo teria certamente descido à cota inferior e esmiuçado todos os recantos.

A vista para a albufeira é fantástica e apesar de ser proibido, apetecia mesmo dar um belo mergulho da plataforma no meio da barragem! Um par de fotografias de recordação e segui viagem, de alma ainda mais cheia.



E aqui o GPS decide deixar de colaborar (quando troquei o troço intermédio no ermal novamente pelo troço completo da volta) e deixou-me sem grandes indicações durante alguns quilómetros. Um comportamento muito abonatório para um dispositivo desta natureza....

Mas como homem prevenido vale por dois, tinha fixado alguns pontos chave na rota, e um deles era a vila de Castelões. Por isso em Taíde e na dúvida entre Póvoa de Lanhoso e Fafe, bastou-me perguntar por Castelões para ficar na rota certa.

Mais um bonito troço nos arredores de Arosa e uma paragem para a tradicional sandes mista com Sumol em Garfe, antes de atacar a longa subida para Gonça e depois para São Torcato. Subida exigente a exigir ritmo certo e muita cabeça. Eram 13h30, o sol estava impiedoso e a hidratação fundamental.

Daí até Guimarães, é sempre a descer, para alívio do ciclista já que o sol continuava feroz, e as energias iam sendo consumidas a bom ritmo. Recarreguei as baterias na descida, o suficiente para enfrentar o pavé no centro de Guimarães. Podia ter evitado os solavancos, é certo, contornando a cidade. Mas tinha saudades do Toural, e por isso fui lá dar uma perninha.

Até Vizela foi uma luta mental para manter o ânimo para a subida da Serra do Relógio que seria o último grande desafio do dia. Curiosamente, a cabeça era a parte menos confiante e só com a resposta bem positiva das pernas, no primeiro quilómetro a subir, é que me mentalizei que afinal aquela subida, feita já com 150Km nas pernas, não ia ser o inferno que tinha suposto. Aparte dos últimos 500m em que sofri por antecipação de nunca mais chegar ao topo, o restante foi feito com pedalada sólida e com muita bravura.

Conquistada a Serra do Relógio, estava na altura de fazer os chamados "troços de ligação até casa". Estradas que, embora já tenham sido lugares distantes, agora são apenas passagens forçadas entre o desconhecido e o regresso a casa.

Paços de Ferreira, Lordelo, Sobrado e Campo, foram atravessados em modo automático e com o pouco entusiasmo que sobra nesta altura do campeonato. Uma pequena celebração em Campo com a ultrapassagem dos 200Km, objectivo do dia, e chegada a casa pouco depois.

Esgotado mas extremamente feliz, tinha conquistado mais um objectivo pessoal e adicionado mais alguns quilómetros ao meu currículo de pedaladas. Nos últimos dois meses já foram mais de 2300Km, distribuídos entre estrada (2000) e BTT.

Telemetria da volta aqui.

Consumo sólidos: 1 barrinha, um gel, um cubo de marmelada, uma sandes mistas e duas ameixas.
Consumo líquidos: Aproximadamente 5 litros de água, e 3 refrigerantes para alimentar a alma.

Ano e meio depois de começar, parece que o bichinho da estrada ficou bem instalado! Mas não esqueço o BTT e por isso no próximo domingo vou descobrir uns trilhos novos para os lados de Braga. 8 de Agosto marcará o regresso à estrada com a subida à Senhora da Graça, no dia da etapa da Volta a Portugal.

Até lá! :cool:
 

duchene

Well-Known Member
#11
Petite force será o nome dado ao relato das voltas mais pequenas ou menos importantes, que não justifiquem uma crónica completa. Normalmente não são crónicas ilustradas.

Petite force: Entre Torrão, Luzim e Abragão
Ontem estava prevista a saída até à base logística de Amarante, para uma aventura de descoberta para os lados da extinta linha do Corgo.

Quando me levantei, às 5h30, no exterior estava uma temperatura bastante fresca o que, aliado ao estado menos famoso dos meus brônquios e garganta me fez ponderar com pés e cabeça se valia a pena arriscar uma saída mais isolada.

Assim, acabei por ouvir a voz da razão e não avancei para Amarante. Ainda assim, queria ir esticar as pernas, por isso fiz rapidamente uma volta alternativa aqui por perto, mas que me permitisse a qualquer altura regressar a casa, caso não me sentisse melhor.

Há uns tempos o fogueteiro tinha falado na opção de seguir até Abragão via barragem do Torrão, mas que na altura tinha falhado a viragem o que o colocou fora de rota.

Como me oriento bastante pior do que ele mas tenho a vantagem do GPG rapidamente desenhei uma rota sossegada para fugir da confusão e ao mesmo tempo ir descobrir o tal troço novo entre a barragem e a subida de Abragão, subida que já conhecia em parte de outras aventuras para o lado do Marco.

Acabei por optar por fazer Valongo > Recarei > Salto > Branzelo > Entre-os-Rios > Torrão > Luzim > Vila Cova > Paredes > Valongo, coisa para dar uns aceitáveis 90Km.

Às 9h00 estava a sair de casa com a ideia de fazer a volta a um ritmo um pouco mais alto do que o costume, para variar também os andamentos.

Até à N108 não há muitas novidades, a estrada está em bom estado, exepção feita à parte final depois de Branzelo. A N108 em si é que está uma miséria. Espero que receba um tapete condigno no final de todas as intervenções. Felizmente depois de Rio Mau a coisa melhora e pude olhar, com nostalgia, para o troço original da N222, lá do outro lado do Douro e que boas recordações trás, nomeadamente do PIF*U.

Estava à espera de encontrar mais gente na estrada, dado o feriado mas acabou por ser um dia não muito diferente do sossego dos sábados a que habitualmente pedalo.

Primeira vez que atravesso a barragem do Torrão, a velocidade reduzida, já que tenho especial fascínio por estas estruturas e, por isso, gosto de perder uns minutos a descortinar as peculiaridades de cada uma.

Obviamente que, depois de uma barragem, obrigatoriamente se segue uma subida e portanto aqui não seria excepção. Subida simples e constante até Rio de Moínhos onde tomaria a direita então apanhando a N312 que me iria acompanhar até Vila Cova.

É uma estrada bastante simpática, bonita até, dado o belo panorama que permite sobre as encostas da Serra da Aboboreira e, mais lá ao fundo, do Marão, que também teima em espreitar.

O vale do Tâmega é amplo e deixa, por isso, que a vista se espreguice. A primavera já vai longa, sendo o florido e o verdejante uma constante. Estrada ondulada com um ligeiro sobe e desce, fixando-se na subida nos quilómetros finais, antes de encontrar a N320, rota mais tradicional de quem quer fazer a subida de Abragão, via Alpendurada. O piso em bom estado e o muito pouco trânsito agradaram-me igualmente.

Curiosamente, se tivesse de reparar nesta estrada vindo na subida da N320, provavelmente não lhe daria importância já que a última centena de metros até ao cruzamento é feita em paralelo, o que eventualmente a excluiria de uma futura incursão.

Já na N320 sobe-se mais um par de quilómetros até Duas Igrejas. Depois é só tomar a direcção da Bracalândia e rapidamente estamos na variante Paredes-Penafiel, felizmente no seu troço final.

Depois de ter abrandado um pouco desde Torrão, para apreciar o tal troço que não conhecia, voltei a impor um ritmo um pouco mais alto até casa para desgastar mais um pouco as energias.

No final, acabou por não ser uma manhã mal passada. Sem a espectaculosidade de outras voltas, ficaram os serviços mínimos cumpridos, numa variação do meu registo mais pausado, mas também consideravelmente mais longo.

Dados finais: 91,04Km // 1216m Ac+ // 25.8Km/h média em 03h31m
 
#13
Deixa-te das bicicletas e dedica-te á prosa!! Muitos Parabéns! É importante estar a lêr algo e sentir que estamos em cima da bicicleta a sentir o que tu estavas a sentir e tu, consegues fazer passar isso na perfeição. Excelentes relatos!
 

duchene

Well-Known Member
#16
Obrigado a todos pelas simpáticas palavras. Nem sempre a disponibilidade ou a inspiração para a prosa serão as maiores, mas vou tentando partilhar com todos, um pouco desta paixão que me move, e que tem vindo a crescer no fórum, pelos percursos diferentes e inusitados.

Petite Force: Assunção e a citânia de Sanfins

Résumé muito breve da volta de hoje.

Tinha um par de horas livres de manhã e para cumprir o restante dos 160Km que ficaram por fazer na volta grande, decidi fazer algo de 70Km pelas redondezas.

Ia aproveitar para explorar um novo troço de estrada depois da Assunção e por isso fiz o início do percurso do PIF2, com a subida à Assunção via Vilar da Luz.

Nada de muito novo a assinalar, aparte do inesperado "sossego de ciclistas" por aquelas bandas. Fiz a subida em 27 minutos (+3 que o melhor que por lá fiz) sendo que pelo caminho ainda aproveitei para fazer um pequeno troço que ainda não conhecia, em paralelo bastante empinado, pouco antes da viragem para a capela e do paralelo final.

Segui para Monte Córdova e respectivos topos que se seguem e, no início da descida para Bouca, cortei então para o lado da citânia no tal troço que queria descobrir. É uma estrada sossegada, a fazer lembrar Vilar da Luz em termos de envolvente. Piso aceitável sendo que algures lá para o meio, na zona das pedreiras, há um pequeno troço em paralelo. Depois de um par de quilómetros bastante regulares segue-se a valente descida, que ficou já na lista das subidas a fazer, uma vez que me parece ter um grau de dificuldade interessante. Aqui o asfalto é de boa qualidade em termos de superfície, mas extremamente ondulado a ponto de andar para lá aos saltos em algumas partes...

Vim sair às grandes rectas de Paços > Frazão, curiosamente no cruzamento que, do lado oposto, segue para o famoso Tatana. É a lembrar que tenho de lá voltar! :D

Logo aí um terrível vento de frente, que não mais me ia largar até casa.

Tentei colocar o ritmo possível, quase sempre acima dos 35Km/h até Sobrado. Aí o vento piorou e a minha disposição também, pelo que acabei por levantar o pé e fazer o resto do caminho em descompressão.

Sem ser nada de especial, deu para rodar as pernas a pensar aventura do próximo fim-de-semana, algures para os lados da Caniçada. ;)

Dados finais: 68,02Km // 1058m Ac+ // 23.5Km/h média em 02h53m
 
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#17
Andre,

só pecaste pela demora!;);):D:D:D

Excelente espaço, e pelos vistos promete. Só uma pergunta: Posso colocar aqui uma das minhas fotos?:D:D:D:D:D:D

Espero que num dos futuros relatos o meu nome seja mencionado, porque será sinal que fomos andar por uma estrada desconhecida algures por aí.:D:D
 

duchene

Well-Known Member
#18
Se for uma fotografia comprometedora onde eu apareça a rolar a alta velocidade no Furadouro... não! Tenho uma reputação a manter! :D

--

Que de facto o teu nome apareça em breve numa volta em conjunto, embora, e de forma indelével, já esteja marcado na Ponte do Silêncio, indicação que em muito contribuiu para esta minha panca das estradas desertas e fascinantes.
 

duchene

Well-Known Member
#19


Mesmo com os resquícios de uma persistente constipação, não podia deixar de aproveitar mais um fim-de-semana para nova incursão em estradas desertas, fascinantes e sobretudo, desconhecidas para mim.

Apesar de sobejamente conhecido e calcorreado por muitos ciclistas e companheiros de fórum, o Gerês é ainda território desconhecido para a BMC, pelo que está na hora de os apresentar devidamente. E amanhã será!

Apesar de inúmeras hipóteses haver para abordar aquela zona, o facto de ter companhia neste passeio obriga a que seja feita alguma ginástica em termos de percurso, para manter as coisas dentro de valores acessíveis em termos de quilometragem.

Assim, o imperativo que me foi apresentado era o de a volta se quedar pelos 130Km, continuando assim a evolução gradual do Miguel, que me acompanhará mais uma vez, tendo sido o degrau anterior cumprido com os exigentes 120Km de Montemuro. Mas como eu sou malandro, apontei o total da volta para bem perto dos 150Km e 3000m de acumulado. :D

Sendo que o ponto de partida estava estabelecido na Caniçada, não haveria muito por onde inventar quando adicionou meu imperativo pessoal: a volta teria de passar por Espanha. Ou para ser mais sonante, teria de ser "internacional".

Em termos circulares, apenas uma volta se afigurava possível. Bastaria decidir o sentido em que teria de ser feita. Como introdução à região e a pensar num dia de passeio, optamos por fazer a volta no sentido São Bento da Porta Aberta > Gerês.

Tradicionalmente o percurso implica subir pelo lado do SBPA, até à barragem de Vilarinho das Furnas e daí para Brufe, seguindo para Germil e cruzando depois a fronteira no Lindoso.

Nada a inventar até Entre Ambos-os-Rios sendo que aí quis dar um cunho mais pessoal e, ao invés de apanhar logo a N203/N104 para a fronteira, desenhei a rota mais a norte, pela M550 por forma a passar pelo Soajo e também a atravessar a própria estrutura da barragem.

Já em Espanha novo desvio à rota tradicional com a travessia da barragem para o lado norte, visita a Entrimo e a A Herdadiña, mais uns quelhos perdidos e claro, não podia estar perto de mais uma barragem sem a atravessar! Assim, o percurso atravessa a barragem da Concha, no extremo mais a Nordeste desta volta. Depois, rumo ao sul para Lovios por mais uma estrada secundária.

E em Lovios não há mais por onde inventar. Basta seguir a tradicional estrada via Portela do Homem e Portela de Leonte até às Caldas do Gerês onde tentarei encontrar o desvio até ao miradouro da Pedra Bela para o habitual postal do Gerês (não aparece no gmaps embora se veja bem a estrada na vista de satélite), antes de voltar para as Caldas do Gerês e fazer a ligação até à Caniçada.

Tenho pena de não poder incluir a zona de Junceda que fiz de carro há tempos e fiquei deslumbrado. O problema é que obrigava a ficar apontado directamente ao Gerês e/ou a falhar o SBPA que também é um ponto de interesse na volta.

Não se pode ter tudo e novas oportunidades surgirão, até porque já está combinado fazer a outra asa da "borboleta", ou seja Caniçada > Gerês > Lovios > Tourém > Paradela > Gerês.

E pronto, fica a ideia. Podem ver o mapa (sem a Pedra Bela) > aqui

Vamos ver se a concretização corre como previsto e se a meteorologia se apresenta melhor do que hoje. Rumo a norte!
 
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#20
André parabéns pela volta programada!

Eu normalmente quando vou para o Geres levo a RCZ para poder desfrutar de tudo o que o Geres tem para nos dar e apenas levo a minha Scorpio quando é de passagem.

Se soubesse há mais tempo desta tua voltinha talvez tentasse fazer-te companhia... mas... fica para uma próxima... quem sabe...

Abraço e boa sorte para a tua volta
 
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