1) Qual é a causa da diurese provocada pela ingestão de cafeína?

r. Aparentemente essa ação se deve ao aumento da filtração glomerular e do fluxo renal, especialmente na região medular dos rins. No entanto, os mecanismos envolvidos ainda permanecem controversos.

2) Orientar atletas, engajados em competições de longa duração, para que não consumam bebidas que contenham cafeína com a finalidade de evitar o seu efeito diurético, e portanto evitar a desidratação durante a competição, seria uma atitude correta?

r. A diurese provocada pela ingestão de cafeína depende da quantidade ingerida. Indivíduos que já possuem o hábito de ingerir cafeína, provavelmente irão ter esse efeito amenizado. No entanto, se o indivíduo mantiver uma ingestão normal de cafeína (200mg/dia) e se hidratar corretamente, dificilmente entrará num processo de desidratação provocado pela ingestão dessa metilxantina.

3) Pessoas acostumadas a ingerir cafeína apresentam algum tipo de resistência ao seu efeito com o passar do tempo?

r. Sim, a exposição crônica do organismo a essa metilxantina leva a perda da sensibilidade devido à saturação dos receptores b-adrenérgicos. Dessa forma, para que se tenha o efeito esperado o ideal e interromper o uso (de forma gradativa) passando por um período sem a ingestão da substância. Após esse período a utilização de cafeína terá um efeito maior mesmo se ingerindo quantidades menores que as anteriormente utilizadas.

4) O uso de estimulantes como a cafeína poderiam prejudicar a absorção de algum macro ou micronutrientes?

r. Sim, o uso de cafeína pode prejudicar a absorção de ferro, cálcio, e magnésio quando esses são ingeridos juntos numa mesma refeição. Assim, o velho hábito de ingerir um cafezinho após as refeições, pode, em parte, levar a uma deficiência desses nutrientes no organismo.

5) A cafeína e a efedrina tem seus efeitos anulados pelo consumo de álcool?

r. O fato de se consumir álcool leva a uma série de mudanças que vão desde a diminuição do fluxo de enzimas salivares e na peristalse esofágica, até o aparecimento de gastrite aguda e duodenite. O efeito do etanol sobre a mucosa gastrointestinal é deletério e geralmente se revela prejudicando a absorção dos elementos produtos da ingestão. O efeito do etanol sobre o esvaziamento gástrico é dose dependente; alta concentração causa maior atraso da passagem de substâncias sólidas e aumenta o movimento de líquidos. Dessa forma, o consumo do álcool pode diminuir ou até anular o efeito de bebidas contendo cafeína e efedrina.

6) Existem relatos de que a ingestão de efedrina leva a fadiga mais rápido do que com a ingestão de cafeína?

r. Não. Uma vez que a ingestão dessas substâncias diminui a percepção do esforço, isso leva o indivíduo a resistir por mais tempo a uma atividade física mais vigorosa (alta intensidade). Nestas condições, no entanto, o gasto energético pode ser excessivamente alto, levando, em conseqüência à fadiga precoce. Neste caso a antecipação da fadiga não se deve à efedrina, mas aos efeitos estimulantes que esta provoca e que levam o atleta a competir fora do seu padrão habitual de esforço. Nesse caso, como a cafeína e a efedrina têm efeitos fisiológicos similares, a diferença será em função da potência da droga (efedrina mais potente que a cafeína) e a dose utilizada.

7) Como que a ingestão de aspirina aumenta a liberação de norepinefrina?

r. É sabido que grande dose de aspirina causa hiperglicemia e glicosúria e depletam os estoques de glicogênio hepático e muscular; esses efeitos são parcialmente atribuídos à liberação de epinefrina. Além disso, essa grande dose reduz o metabolismo aeróbio da glicose, aumentam a atividade da glicose-6-fosfatase (enzima responsável pela remoção do grupo fosfato da glicose, permitindo que essa seja liberada para a circulação), e promove a secreção de glicocorticóides. A ingestão de aspirina também reduz a síntese de prostaglandinas, entre as quais a E2, que inibe a lipólise induzida por catecolaminas e seus análogos. Além disso, observa-se aumento na liberação de catecolaminas após o consumo de aspirina, embora este aumento seja discreto e não se conheça, ainda, o mecanismo envolvido.

8) Qual a relação existente entre o consumo de cafeína antes do treino e a "queima" de gordura? Isso pode otimizar ou atrapalhar essa "queima"? A cafeína acelera o metabolismo?

r. Os efeitos da ingestão de cafeína aparecem pela ingestão de doses da ordem de 3 a 5mg/kg de peso corporal, uma hora antes do esforço. Essa ingestão promove liberação de epinefrina, com subseqüente aumento da lipólise e da glicogenólise. Nessa situação, se for mantido um exercício de endurance por um período prolongado, ocorrerá maior mobilização de gorduras, parte em função do exercício, parte estimulada pela cafeína, e maior oxidação dessas, devido à maior demanda energética imposta pelo exercício físico prolongado. Assim, se o objetivo a ser alcançado for o emagrecimento, maior atenção deverá ser dada à manutenção de um treinamento físico priorizando os exercícios de endurance do que a de ingestão de cafeína.

9) É verdade que o efeito da cafeína sobre a performance é dose-dependente?

r. Não, estudos revelam que a ingestão de cafeína com dose da ordem de 5mg/kg de peso corporal tem a capacidade de aumentar a performance, sendo que doses acima desta não têm efeitos adicionais. Essa dose (5mg/kg) é insuficiente para aumentar a concentração de cafeína a ponto de ser considerada dopping pelo Comitê Olímpico Internacional (> 12mg/mL).

10) Qual é o efeito da ingestão combinada de cafeína, efedrina, e aspirina.

r. Com relação a ingestão conjunta de cafeína e efedrina, essa manobra nutricional tem como finalidade amplificar os efeitos sobre o aumento da taxa metabólica e a oxidação dos ácidos graxos. Além disso, quando se combina essa manobra nutricional com a ingestão de aspirina (cujos efeitos fisiológicos são: capacidade de inibir a síntese de prostaglandina E2, e, portanto aumentar a meia vida plasmática das catecolaminas aumentando a lipólise; aumentar a atividade das proteínas desacopladoras, no sistema de transporte de elétrons, levando a maior produção de energia através da oxidação de gorduras; e aumentar a entrada e oxidação dos ácidos graxos no músculo, fígado e outros tecidos) esses efeitos são potencializados e mantidos por um tempo maior.

11) Seria possível melhorar o rendimento esportivo de um atleta com o uso da cafeína? Qual é a quantidade necessária? No caso do "cafezinho", qual é o volume?

r.Estudos mostram que a ingestão entre 3 e 13mg/kg/dia é capaz de aumentar a performance de endurance em aproximadamente 20-50%. No entanto, a quantidade segura capaz de produzir efeitos sobre a performance é de aproximadamente 5 mg/kg, ou seja, igual ao consumo de 3 a 4 xícaras de café expresso (300mg de cafeína) para um indivíduo com 60 kg. Vale lembrar que isso só terá efeito se for ingerido até 30 minutos-1 hora antes do esforço, e o indivíduo deve estar livre da ingestão de qualquer fonte de cafeína por, pelo menos, 48 horas. Além disso, não deve ser feita a ingestão concomitante com alimentos pois isso dificulta a absorção da cafeína. A cafeína é rapidamente absorvida se administrada na forma de cápsulas.

12) O aumento da força muscular atribuído ao consumo de cafeína e devido à maior freqüência de estímulos nervosos ou ao aumento do cálcio intracelular?

r.Experimentos in vitro revelam a capacidade que essa metilxantina tem em afetar importantes passos da contração do músculo esquelético como, por exemplo: aumento da liberação de Ca2+ do retículo sarcoplasmático; aumento da sensibilidade da troponina e da miosina ao Ca2+; e diminuição da recaptação desse íon pelo retículo sarcoplasmático. Além disso, a cafeína estimula a atividade da ATPase Na+-K+ da musculatura esquelética inativa, levando ao aumento da captação de K+ e ao efluxo do Na+. Isso atenua o aumento da concentração plasmática de K+ devido ao exercício, permitindo a manutenção do potencial de membrana durante a contração muscular. E é devido a todas essa mudanças que a cafeína pode aumentar a força de contração muscular.

13) A diminuição da percepção do esforço seguido do consumo de cafeína é devido a qual fator?

r. A hipótese para explicar esse efeito é que a ingestão de cafeína promove um rápido aumento dessa metilxantina no SNC, devido à sua capacidade de atravessar livremente a barreira hematocefálica. No SNC ela atua como antagonista dos receptores de adenosina, aumentando a síntese e liberação de neurotransmissores. Isso leva ao aumento da atividade motora e do estado de vigilância. Além disso, a cafeína parece diminuir o limiar de excitabilidade dos motoneurônios e aumentar a força de contração muscular. Outra hipótese para explicar a diminuição da percepção do esforço é que a cafeína aumenta a liberação de b-endorfinas e outros hormônios que modulam o sentimento de desconforto e dor associados ao exercício extenuante.

14) Quando um indivíduo está sendo suplementado com creatina, é aconselhável que esse não ingerira cafeína? Por quê?

r. Sim, isso porque a cafeína interfere na absorção da amina, reduzindo a eficiência dos protocolos de suplementação de creatina. Assim, preconiza-se a redução severa do consumo de alimentos contendo cafeína durante as fases de suplementação com creatina.


Congresso Internacional do Gatorade Sport Science Institute-2003 (GSSI).

Dr. Reinaldo A. Bassit